Friday, 20 February 2015

Enquanto eu for descobrindo




Enquanto eu for descobrindo o primórdio da beleza
fecha-me os olhos para vê-lo.
Enquanto eu for descobrindo a língua portuguesa
sê o meu Fado mais belo.
Sê o meu passo.
Enquanto eu for descobrindo como amar
deixa-me ir para que possa voltar...
A liberdade de gaivotas e os fundos oceanos
serão  a medida do quanto nos amamos.
Sê o meu Destino.
Enquanto eu for descobrindo a sorte
sê o homem do meu Feminino.
Ajuda-me a brandir a minha espada
quando a batalha se tornar intensa
em caso de morte, sê a minha renascença
porque sem ti não sou nada
nem na Vida, nem sequer na Morte.
Sê a minha crença.
Sê a couraça da minh’alma desarmada
enquanto eu for descobrir o Perfeito
e jamais poderei ser derrotada
caindo e erguendo-me como quem vença
por saber que te trago no peito...



Sunday, 6 April 2014


Que orquídeas despertaste em mim?
Que emoção, por ti um desvelo
no meu coração à míngua,
triste perdido destino de gelo?

Há muito tempo que não escrevo
a um homem vivo.
Todas as palavras parecem alheias.
A mulher que uma vez já era,
perdi-a não sei onde.
O amor (e tanto amor que tinha...!)
escasseou-se-me nas veias...
O que me resta para te dar?

O meu cérebro é um quadrado torto.
Um ângulo é redondo e os outros três
não existem.  O que me resta?
Tu não estás morto!
O que me resta para dar 

a um vivo, belo homem que tu és...?


Inwardly seeing the cruelty of yearning,
begging my life to give me a sake, -
why do I feel that my heart is burning?
How could we distant this paradise make?

Silently words in heart I still keep
for once I'll be treading in front of your face,
and then, I confess, in soul I will weep, -
when my eyes with your eyes will gently embrace.


Friday, 4 April 2014

No meu ventre

O dia em que, tão difícil de sorrir,
respiro fundo para relembrar a Vida.
A ausência das palavras que sinto presentes,
a ansiedade pelo Desconhecido descoberto,
a hipocrisia de um traço torto
entre o saber e o querer saber.
Ah, Vida... Quando desço para a Terra,
a aterragem é turbulenta e o rumo morto.
O corpo move-se de modo ambíguo
em que um dos sentidos é não fazer sentido.
A nudez da minha consciência interfere
com o meu traje de postura petulante,
e despe-me até ao pudor da essência,
degolando severamente os pináculos
 da hipocrisia do traço torto
entre o saber e o querer saber.
...Nunca por esculpir o Fim...
A vida é estranha! Estranha!
Amar é chorar, o Céu é obeso,
e a Lua parece uma bola de Berlim.
Não sei se o Mundo é redondo, mas reconheço
nos meus ombros o seu peso.
Sorrir depois de tê-lo vivido é como
abotoar o traje depois
de anos a comer em excesso.
A náusea provocada é tê-lo vivido.
Tê-lo vivido é a náusea provocada.
Ter alma de poetisa é gerar o Universo;
é carregá-lo dentro do meu ventre
e sofrer de contrações para sempre
sem nunca dar à luz o nexo!
É despir o coração e ter sexo
com as serenatas lúcidas em verso
e pelos ritmos sôfregos compostos
beijar os lábios de mil rostos.

Monday, 10 March 2014

Se estivesses aqui

Se estivesses aqui, fazíamos amor
neste quarto, nas borduras brancas
O mar lá fora, as tuas mãos nas minhas ancas
pele a pele num belo, nítido esplendor.

Cobria-te de beijos, se estivesses cá
e ondulavam os corpos em avidez envoltos
Eu de renda... cabelos soltos...
Quero-te, Amor... Quero-te já...

Esta distância que tento olvidar de dia,
à noite devagarinho ascende a lua
as saudades numa etérea fantasia...

Tens-me toda e de alma nua...
Enquanto estamos longe, entrego-me à poesia
em que sou tua e só tua.

Wednesday, 15 January 2014

How can the rain with my passion start burning!
Changing the road can not cure my desire, -
my Dear, flames can not cease, they are just turning
from water to earth, from earth back to fire...

(From fire to tears, from tears to a pen,
from pen to the rhymes and to fire again.)

Thursday, 9 January 2014

prostrados andámos
peixinho e eu
dei-lhe os pulmões
em troca de pele dourada

Thursday, 31 October 2013

Reta ao escuro



Esta noite levou-me todo o vocabulário.

     No Outono das pálpebras vi cair as palavras que se juntaram à terra como os ossos dos amantes mortos. A estagnação do tempo, o silêncio da hora... Os segundos contados são as lágrimas caídas na sensatez supérflua. Penso em tudo e penso em nada, porque o meio-termo é a paz eterna e a paz eterna é morrer.


     Sempre senti fascínio pela Vida, mas nunca consegui salvar-me do naufrágio. Debruçada pelos convés laminados do ponto de interrogação, derramei os pensamentos de sal e cicatrizes em que o espanto teme e arfa até se resumir ao tamanho de um aljôfar encontrado no mais estranho canto do bolso no fim de um dia de chuva e tráfego.

     Sinto-me pequena, tão pequena; e que alheamento furtou as dimensões exímias, onde uma vez respirara o ar álacre e estremecera a tonalidade dos meus sonhos pelas cordas livres de vigília? Há o Amor à vista do outro lado do vidro descortinado. A grandeza vislumbrada provoca tamanha sombra, que nela me perco e não me encontro e já não é o Mundo que me faz pequena; é a Vida que não me engrandece. É a Vida... Este fascínio vil, a pérola esquecida que hoje encontrei no bolso ao ir à busca das chaves da minha casa sem ti.
     

O fim do dia. O vento devora as cortinas convulsas ausentes ao meu desejo. Estou dois mil e quinhentos quilómetros longe da minha infância e duzentos e vinte e oito anos-luz longe do meu Eu. Nesta terra valente e imortal não estou mais perto de mim. Estou apenas menos longe.

Estou aqui, Shedar... aqui.
Brilha e ascende em mim a lágrima da minha última esperança.